Estar pela primeira vez em um cemitério no dia de finados, em busca do amor, parece improvável. Esse seria o lugar de triunfo da morte. Mas quando a necrópole se faz imagem nos olhos, túmulos explodem em cores. Flores homenageiam os que já se foram.
Andando pelos caminhos irregulares dos túmulos, a dimensão avassaladora da morte se fez tão dura quanto uma bofetada. Quando seremos, se já não somos, minoria em relação aos mortos? É como se as flores acendessem holofotes coloridos ou fossem braços erguidos em meio a multidão, esperando ser contabilizada. De uma massa cinza, o cemitério se torna pontos coloridos e difusos.
Cultivadas ou criadas, de tecido natural ou artificial, elas representam uma duração do sentimento, uma continuidade na memória. Sintetizam um desejo da humanidade: a eternidade. Não satisfeitos com as flores naturais, sujeitas tanto a morte quanto qualquer ser humano, inventamos as de plástico, dando corpo a uma imagem de flor, que por sua vez representará a relação do sujeito com a morte.
Antes de pensar o amor estando na necrópole, imaginei a fotografia que seria ideal: uma velhinha, solitária, chorando a morte de seu marido. Eu detesto quando penso esse tipo de coisa. Tentei me livrar desse estereótipo. Aos poucos fui me desprendendo dele e percebendo a natureza das flores no território da sem vida. Elas são o contraponto do cinza: o amor contra a morte.
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Essa postagem relata uma das saídas fotográficas realizadas em função de meu Trabalho de Conclusão de Curso, compondo um diário de bordo da busca pelo conhecimento do amor da poesia "A angústia de João", de Menotti Del Picchia, por meio da fotografia.


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